segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Só riso

"Daqui nada se leva"
disse o palhaço à menina
"tudo passa, tudo é névoa,
só fica a alma, a surdina"

"O que fazer então?"
perguntou a pequenina
"O meu riso é solidão,
essa é minha triste sina"

"Sorria de tudo o que ver"
disse o colorido animado
"Tem coisas lindas a saber"
o trivial é deveras engraçado

Puseram-se a rir, os dois, em grande estilo
a guria aprendera a lição
sorriram do nada, sorriram do tino
há maior alegria que o livre arbítrio do coração?

Daí é que a coisa intriga
a quem tem a carranca sisuda
quem nunca sorri na vida
fica com o farnel de dores, fardo que não muda



Vinicius Soares

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

paráfrase do salmo 23

André Coelho

O Senhor é meu pastor, o meu único pastor, e nada, nem o bem, nem o mal, nem felicidade, nem tristeza, nem vitórias, nem derrota – nada – me faltará.

Ele me conduz a alma para o descanso, como se eu estivesse junto de campos verdes e fontes de água limpa.

Nos dias quentes, o Senhor refresca a minha alma; nos dias de dor, me consola; nos dias de angústia, me renova as esperanças.

Por amor do seu nome, ele me conduz por caminhos nos quais posso conhecer a justiça.

Há um vale escuro, como se fosse a sombra mais escura, a sombra da própria morte. Nesse vale, por entre os montes, há perigos e males terríveis. Porém ainda que eu ande por esse vale na minha vida, não terei medo dos males que esperam por mim, porque tu, Senhor, estás do meu lado, mostrando por onde seguir.

Quando eu vacilo ou resolvo tomar por conta própria um caminho diferente, o teu bordão me repreende e me traz de volta à trilha na qual nunca estarei sozinho. Quando me machuco nas pedras ou espinhos dos caminhos, o teu cajado me dá consolação e conforto.

Quando os homens que me odeiam, porque não te conhecem, zombam de mim, tu me alimentas com um banquete espiritual e perfumas a minha alma com as mais puras essências.

Por todas essas coisas, eu tenho certeza de que a tua bondade me seguirá todos os dias da minha vida, quando eu estiver bem, ou quando estiver machucado. Também sei que, quando eu vacilar, a tua misericórdia será comigo.

Assim serão todos os meus dias daqui pra frente: como se eu habitasse na própria casa do Senhor. Assim será hoje, amanhã e depois de amanhã.

Só de estar em tua companhia,
meu coração já começou mudar.
Passei a ver aquilo que não via,
tua presença vai me transformar.
(Gerson Borges - Tua Presença Vai me Transformar)

Belém, Pará
03 de janeiro de 2010

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Pavão e Sabiá (MPB)






 
Vou contar-lhe a diferença
do pavão e o sabiá
um canta, o outro encanta
um bonito de se ouvir, o outro de se olhar


 
Mas o que faço minha flor
pra você me desejar?
Não sei se canto ou encanto
por teu ouvir, por teu olhar

 
Vou contar-lhe a diferença
do sabiá e o pavão
um adorna, o outro afina
um toca a alma, o outro o coração

 
Mas o que faço minha flor
pra sentir o teu calor?
não sei se adorno, ou me afino
por tua voz, por teu amor



Vinicius Soares

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

eu não tenho lugar

Tem coisas que a gente nunca se esquece, por felizes, trágicas, cômicas ou bizarras que tenham sido.

Há pouco mais de um ano, ouvi no noticiário do meio-dia dos suicídios que têm havido nas tribos indígenas do Mato Grosso do Sul: em apenas um mês, mais de 10 jovens haviam se suicidado. Um deles, que se enforcara pendurado num galho de árvore, escreveu no chão, abaixo dos seus pés: "Eu não tenho lugar".

Repensando hoje sobre isso, chamou-me a atenção o detalhe de que o jovem sabia escrever.

O medo faz parte da personalidade do ser humano. O organizar-se em sociedade também. Mas sentir-se ou saber-se parte de um grupo é muito mais do que estar no meio dele ou ter acesso à linguagem de que se utiliza.

É por isso que o homem tem medo de ficar só. Medo de "sobrar". Este medo, no caso do jovem índio, chegou a ser maior do que o medo de morrer.

E você, o que você faz com seus medos?


André Coelho

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Metidez (MPB)



Não garanto uma volta
pode até ser metidez
fio bom não se solta
às onze o trem parte de vez

Aos olhos da morena
que ontem declarei amor
desvio, furto, reservo de forma amena
um coração cheio de dor

Mas no fim ela torna
confiante, querendo lugar
deja-vu não me importa
morena, deixaste a sorte passar

(refrão)

Vida vem vida vai
Vida vai vida voa
meu bem não sou pro bico
de qualquer pessoa


Dessa vez não deu samba
lhe digo: não sou pra brincar
indecisão tem quem escamba
morena, deixaste a sorte passar


Soares

*foto: Oscar Wilde

ps.: dedico essa música aos amigos envoltos na "metidez", o que no caso, são muitos

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Divagações

Quão grande é o tempo perdido

Nas questões sem solução

Cabe a mim provar ter existido

Lá no Éden, o umbigo de Adão?


Anos idos, estudos vazios

Esforço, labor, ostentação

O resultado vê-se nos brios

Glórias, honras, elogios, contemplação


No fim, a tese é de valia

E os especialistas esquecem então

Distraídos com seus diplomas, leviana alegria

Dos que na rua mendigam o pão


Do que vale o exímio estudo

noites mau dormidas, extrema dedicação

Se no fundo, ao pobre, objeto, contudo

Não lhe é dada compaixão?


Mas vai dizer isso ao mundo

Ao seu discurso darão atenção?

Quando a solidariedade é passageira

Mais vale o umbigo de adão


Vinicius Soares


ps.: dedico a Filipe e Anne, raros comprometidos com o reino


segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Cadê a chuva, meu Deus?...

Olhei ontem para o céu,
e achei que hoje seria um confortável dia de nuvem e chuva...

Quem pode com um sol desses?


"A chuva chega e ela vem lavar,
vem me livrar do mal.
É água fresca para aliviar
meu coração que secou
de tanto pranto derramado
pela mágoa
que se instalou no meu peito
de um jeito tão perverso;
hoje se desfaz nesses versos..."
(Mart'nália)


André Coelho