quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Morena (MPB)



Oxalá que em toda a rua houvesse perfume

Pra alegrar meus dias e minha nega perfumar

Quero água de cheiro, não quero azedume

Quero lindeza, nobreza, alto patamar



No meio de todos eis ela, destaque

Morena de sonhos, capricho popular

Faz cair o queixo, pasma o basbaque

Donzela doce, gingado espetacular



Quiçá, quiçá! Que será? Que será?

Quiçá, quiçá! Que será? Que será?



Se faz de meiga e doce

ai de mim, ai de mim

Quem dera minha fosse

Ai de mim, ai de mim



No meio de todos eis ela, capricho popular

Morena de sonhos, destaque

Faz cair o queixo, pasma o basbaque

Donzela doce, gingado espetacular



Quiçá, quiçá! Que será? Que será?

Quiçá, quiçá! Que será? Que será?




soares



foto: Ailton Coelho

Modelo: Semíramice Araujo

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

LEVE




Leve-me pra longe
longe, pra lá onde o homem não bica
bica, bica e fere de graça
graça que dói, que quer machucar e nunca fica

Leve-me pra onde
onde quem não compreende não ofende
ofende que dói e não passa
passa que fica, nunca se esvai, se estende

Leve-me pra lá
lá em que o sustenido afina
afina e nunca engrossa
engrossa só o amor de menina

Leve-me pra longe
longe, pra bica onde o homem não lá
lá, lá e graça de fere
fere que dói, que nunca fica e quer machucar


Soares

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Simonia da Alma


aos que gostam da dificuldade

do ler e não entender

odeiam dos versos a humildade

preferem o nada saber


aos de bicos altivos, elevados
vaidade quisera medir
subversivos, pacóvios lustrados
castelos de areia, prontos a ruir

aos de ouvidos desatentos
de olhos cegos, sem luz
fazem dos próprios desentendimentos
sua lástima, sua cruz

eu, pequeno, nada sei
mas em tudo repulso a vaidade
o bobo da corte faz rir o rei
amo em primazia a simplicidade


soares

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Introspecção

aqui ou acolá

no recôndito, silêncio

clama forte, a pulso que está

a quietude, o abstêmio


das palavras

soltas, inventadas

malatravas

criativas, elevadas


fica só, pensamento

ruminando o escutado

livre ou preso, julgamento

refletindo, observado



Vinicius Soares

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Asno



um morro e um sol
um jumento a empacar
o dono e o serol
o jumento a apanhar

"Tu tens exemplos triunfantes,
a eles deves seguir!
Teu avô ao Salvador carregou galopante,
teu primo veio ao profeta advertir!"

"Como assim não queres andar?
Tenho eu que espancar-te mais?
Não vês que estás a sangrar?
Não sente dor em teus ais?"

Do canto do bode à tragédia
redundância salpicada de riso
satírica, a divina e boa Comédia
acha gracejo só quem já tem o siso

o jumento parado, surrado
o dono surrando, esgotado
o sol amarelo, encantado
com o embate na Terra travado

para gosto do povo cego e cru
seguidores do "final feliz"
o jumento voa, vira um anú
nada devo à histórias infantis

da imaginação ao absurdo
do pitoresco ao surreal
o jumento-anú esmurrado e surdo
faz-se como era para ao dono ser leal

vem de tempos os contos de aflição
novos ventos eu não trago, nem intento
já dizia o velho sábio ermitão:
ai de quem nasce para ser jumento





Vincius Soares

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Verve





quero o frescor da pimenta
a vida intensa, o verso visceral
quero o torpor da tormenta
a lida terna, a rima substancial


haverá quem não receia tremer

diante da verdade interior?
vejo os pacóvios tentando esconder
as facetas internas, salutar pavor


das praças conclamo todas as gentes

aos bailes onde só há faces lisas
onde máscaras no ostracismo, entrementes
fulgorosos pensamentos cativa


os de pensar óbvio e raso, deixo-os esperar

como também os de pronto a concluir
convidados estão, oh amantes do indagar
a perscrutar os segredos que hão de vir


no clangor tempestuoso da revelia

quero só os de voz nula
ouvidos atentos, escuta em maestria
quero lá só os de alma nua


mas se o desfrute da erudição

ao tolo parece sedutor
deixo-o regurgitar ante todos a satisfação
de quem crê ser das coisas entendedor



Soares

sexta-feira, 9 de julho de 2010

o dândi



Não há quem se prenda em vão
Nos laços atados do sol
Creio que o nefasto receio da solidão
Faz o peixe beijar o anzol

O medo de si, do divagar
É espadim fervente
O refletir corta a alma, devagar
Ai, dos de pensar latente

Eis a maldição dos que tem pela arte a paixão
A erudição não é dom de todos
Se és sábio, és ermitão
Ou és culto, ou és tolo

Quanto a mim, flâneur que sou a contento
Priorizo o abster-se freqüente
Melhor é amasiar-se com o vento
Do que ser cercado de gente






Vinicius Soares





ps.: dedico ao Prof Fernando Monteiro de Barros, a quem muito estimo