terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Simonia da Alma


aos que gostam da dificuldade

do ler e não entender

odeiam dos versos a humildade

preferem o nada saber


aos de bicos altivos, elevados
vaidade quisera medir
subversivos, pacóvios lustrados
castelos de areia, prontos a ruir

aos de ouvidos desatentos
de olhos cegos, sem luz
fazem dos próprios desentendimentos
sua lástima, sua cruz

eu, pequeno, nada sei
mas em tudo repulso a vaidade
o bobo da corte faz rir o rei
amo em primazia a simplicidade


soares

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Introspecção

aqui ou acolá

no recôndito, silêncio

clama forte, a pulso que está

a quietude, o abstêmio


das palavras

soltas, inventadas

malatravas

criativas, elevadas


fica só, pensamento

ruminando o escutado

livre ou preso, julgamento

refletindo, observado



Vinicius Soares

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Asno



um morro e um sol
um jumento a empacar
o dono e o serol
o jumento a apanhar

"Tu tens exemplos triunfantes,
a eles deves seguir!
Teu avô ao Salvador carregou galopante,
teu primo veio ao profeta advertir!"

"Como assim não queres andar?
Tenho eu que espancar-te mais?
Não vês que estás a sangrar?
Não sente dor em teus ais?"

Do canto do bode à tragédia
redundância salpicada de riso
satírica, a divina e boa Comédia
acha gracejo só quem já tem o siso

o jumento parado, surrado
o dono surrando, esgotado
o sol amarelo, encantado
com o embate na Terra travado

para gosto do povo cego e cru
seguidores do "final feliz"
o jumento voa, vira um anú
nada devo à histórias infantis

da imaginação ao absurdo
do pitoresco ao surreal
o jumento-anú esmurrado e surdo
faz-se como era para ao dono ser leal

vem de tempos os contos de aflição
novos ventos eu não trago, nem intento
já dizia o velho sábio ermitão:
ai de quem nasce para ser jumento





Vincius Soares

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Verve





quero o frescor da pimenta
a vida intensa, o verso visceral
quero o torpor da tormenta
a lida terna, a rima substancial


haverá quem não receia tremer

diante da verdade interior?
vejo os pacóvios tentando esconder
as facetas internas, salutar pavor


das praças conclamo todas as gentes

aos bailes onde só há faces lisas
onde máscaras no ostracismo, entrementes
fulgorosos pensamentos cativa


os de pensar óbvio e raso, deixo-os esperar

como também os de pronto a concluir
convidados estão, oh amantes do indagar
a perscrutar os segredos que hão de vir


no clangor tempestuoso da revelia

quero só os de voz nula
ouvidos atentos, escuta em maestria
quero lá só os de alma nua


mas se o desfrute da erudição

ao tolo parece sedutor
deixo-o regurgitar ante todos a satisfação
de quem crê ser das coisas entendedor



Soares

sexta-feira, 9 de julho de 2010

o dândi



Não há quem se prenda em vão
Nos laços atados do sol
Creio que o nefasto receio da solidão
Faz o peixe beijar o anzol

O medo de si, do divagar
É espadim fervente
O refletir corta a alma, devagar
Ai, dos de pensar latente

Eis a maldição dos que tem pela arte a paixão
A erudição não é dom de todos
Se és sábio, és ermitão
Ou és culto, ou és tolo

Quanto a mim, flâneur que sou a contento
Priorizo o abster-se freqüente
Melhor é amasiar-se com o vento
Do que ser cercado de gente






Vinicius Soares





ps.: dedico ao Prof Fernando Monteiro de Barros, a quem muito estimo

terça-feira, 27 de abril de 2010

Pensamentos


Vidas Secas

Papagaio quieto é papagaio morto


Canção do Exílio
Pica-paus são presos em gaiolas de ferro


Natal
estrela brilha para os ricos, anjos cantam para os pobres


Roupagem
A metáfora é a coragem vestida de pelúcia


Grito
A pretensão é a coragem com crise existencial


Canção do Exílio II
Ninguém se mete com as pipiras


Pesca
Tolice é peixe, muitos há, morrem todos pela boca


Narciso
Todos amam o próximo refletido no espelho


Influência
Filho, isso aqui é Quintana! Volte aos seus desenhos...



Vinicius Soares


haja luz


Deus criou o fogo
nós, as fogueiras
Deus criou os santos
nós, os mártires
Deus criou os pássaros
nós, as gaiolas
Deus criou a beleza
nós, a vaidade
Deus criou a voz
nós, o grito


Deus nos criou
nós, nada



Vinicius Soares