quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Verve





quero o frescor da pimenta
a vida intensa, o verso visceral
quero o torpor da tormenta
a lida terna, a rima substancial


haverá quem não receia tremer

diante da verdade interior?
vejo os pacóvios tentando esconder
as facetas internas, salutar pavor


das praças conclamo todas as gentes

aos bailes onde só há faces lisas
onde máscaras no ostracismo, entrementes
fulgorosos pensamentos cativa


os de pensar óbvio e raso, deixo-os esperar

como também os de pronto a concluir
convidados estão, oh amantes do indagar
a perscrutar os segredos que hão de vir


no clangor tempestuoso da revelia

quero só os de voz nula
ouvidos atentos, escuta em maestria
quero lá só os de alma nua


mas se o desfrute da erudição

ao tolo parece sedutor
deixo-o regurgitar ante todos a satisfação
de quem crê ser das coisas entendedor



Soares

sexta-feira, 9 de julho de 2010

o dândi



Não há quem se prenda em vão
Nos laços atados do sol
Creio que o nefasto receio da solidão
Faz o peixe beijar o anzol

O medo de si, do divagar
É espadim fervente
O refletir corta a alma, devagar
Ai, dos de pensar latente

Eis a maldição dos que tem pela arte a paixão
A erudição não é dom de todos
Se és sábio, és ermitão
Ou és culto, ou és tolo

Quanto a mim, flâneur que sou a contento
Priorizo o abster-se freqüente
Melhor é amasiar-se com o vento
Do que ser cercado de gente






Vinicius Soares





ps.: dedico ao Prof Fernando Monteiro de Barros, a quem muito estimo

terça-feira, 27 de abril de 2010

Pensamentos


Vidas Secas

Papagaio quieto é papagaio morto


Canção do Exílio
Pica-paus são presos em gaiolas de ferro


Natal
estrela brilha para os ricos, anjos cantam para os pobres


Roupagem
A metáfora é a coragem vestida de pelúcia


Grito
A pretensão é a coragem com crise existencial


Canção do Exílio II
Ninguém se mete com as pipiras


Pesca
Tolice é peixe, muitos há, morrem todos pela boca


Narciso
Todos amam o próximo refletido no espelho


Influência
Filho, isso aqui é Quintana! Volte aos seus desenhos...



Vinicius Soares


haja luz


Deus criou o fogo
nós, as fogueiras
Deus criou os santos
nós, os mártires
Deus criou os pássaros
nós, as gaiolas
Deus criou a beleza
nós, a vaidade
Deus criou a voz
nós, o grito


Deus nos criou
nós, nada



Vinicius Soares

inconstância

as loucuras, as mazelas
os rubores das donzelas
todo tipo de agrura
a moral nunca perdura


os castelos, a nobreza
o conceito de beleza
todo tipo de agrura
a moral nunca perdura


o silêncio, a gritaria
a lástima, a euforia
todo tipo de agrura
a moral nunca perdura


o que era sacro, o que é covil
o que é pia, o que era vil
todo tipo de agrura
a moral nunca perdura



(...)
a moral nunca perdura



Vinicius Soares


ps. dedico à Prof Lília Mariano, exímio exemplo

Paixão


Longe vá meu amor

Quando for nunca se esqueça,

mesmo que eu nunca mereça,

um pedaço de torpor


Longe vá meu amor

Ainda que erguida a cabeça,

doravante se apeteça,

de minhas juras de fulgor


Longe vá meu amor

Espero que jamais careça

de um abraço que lhe aqueça

ou de um beijo com ardor


Longe vá meu amor

Que minha dor mui lhe pareça,

me atrelo à caleça,

fico só, ao sol se por



Vinicius Soares

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Dogma e Samba (MPB)



Quem foi que disse que a alegria

se faz presente na heresia?

Quem foi que disse que o riso solto

é o vil caminho de ruas largas para o calabouço


Seja pirata, seja ermitão

Um dogmata, um folião

Seja eufórico, seja inerte

Um metódico, um que reverte


(refrão)

Quem foi que disse que o samba é bode?

Que pra ser santo, sambar não pode?

Quem foi que disse que em meio à ode,

o navegante vê uma procela e não se sacode?


Vinicius Soares